Wednesday, January 19, 2005

MINHAS FÉRIAS DE VERÃO

durante meus anos de júlio pereira lopes
acho que eu era única pessoa que adorava voltar de férias
eu escrevia umas oito redações "minhas férias de verão"
sorteava uma e entregava pra professora.

difícil largar alguns velhos hábitos.

o jpl, a escola onde estudei até 1985
ainda existe, lá na inglês de souza,
perto de onde era minha casa até 1995
e cá estamos nós, no começo de 2005.

se um colégio como aquele se mantém em pé por tanto tempo
(ora, ora, ora.... por onde será que anda a dona nilza?)
o que há de estranho em querer contar como foram minhas férias?

ah, sim...
naquela época, eu era apaixonado pela professora de redação.
a tia marisa.
ah, não...
ah, não...
ah, não...
estou começando a achar que eu amo
pessoas que me fazem ter saco pra sentar e escrever.

elas eram todas musas.
musas profissionais.
inspiradoras, sim.
mas olha:
se eu não escrevesse,
era bilhetinho pra mamãe e papai assinarem.
mas eu sempre escrevia
e se viesse um bilhete pros meus pais dizendo que eu não fiz,
era capaz do meu pai usar aquele canetão preto dele
e usar todo o verso do bilhete pra pedir que ela explicasse
detalhadamente
como foi que ELA perdeu minha redação
porque ele sabia
porque ele tinha vista
porque ele tinha lido
eu escrevia sempre.

teve um dia que a tia marisa pegou meu caderno
"por que você escreveu isso?"
"não, tia... essa redação não é pra você".
(nunca consegui chamar as "tias" de "senhora")
"você quer dizer que não é pra escola?"
"é... eu só posso escrever se for pra escola?"
"sobre o que é?"
fiquei corado, vermelho, roxo, lilás...
"sobre a minha namorada"... murmurei...

ela ficou quieta...
naquela época, achei que ela estava machucada
que era ciúmes dela,
porque eu sempre havia escrito só pra ela
porque ela era a tia Marisa e tal...

fui pra casa triste,
como se tivesse traído a minha musa...

culpa, culpa, culpa.

uma culpa que me doía
cada vez que eu aninhava a bic
no colo do calo do dedo
e deitava de lado na cama pra escrever.
nunca era pra ela.
nunca foi.
e eu não sabia mais pra quem era.

anos depois, já no anglo latino,
outra professora de redação dava as cartas
o nome dela era Vitória
e ela era chata, autoritária e propotente
e embora não houvesse esforço da minha parte
no sentido de agradar a professora,
ela gostava de mim
e, apesar de eu figurar alto na lista
dos delinquentes mais procurados do colégio
e prováveis candidatos à expulsão,
ela me dava tarefas de responsa
como, por exemplo, alugar o filme
que ela ia usar na aula de reposição.

"THE WALL???", ela me perguntou
seus olhos orientais vinham lentamente pro ocidente
"foi a senhora que disse que se
não tivesse o que a senhora pediu
era para eu pegar um filme
que eu achasse 'apropriado' "
ela continuava olhando para a minha orelha
que parecia pegar fogo e latejava
pelo nervosismo
e pelo furo que havia sido recém feito
com um brinco de caflon preto.
enfim, ela balançou a cabeça e assentiu
"na semana que vem a gente vê...
agora, você pega esse The Wall aí
e vai assistir naquela sala lá...
avisa a classe que quem mudou o filme foi você".

não foi bem isso que eu avisei pra classe.
quando eu voltei pra sala tinha gente me esperando na porta
voltei balançando a cabeça, entrei e num sorriso disse:
"... deu certo... "
numa silenciosa euforia,
a gente abriu nossas cervejas
escondeu todas as latinhas
e botou o filme pra rodar.

hey
teacher
leave the kids alone.

"POETRY???"
o professor pergunta no filme...
"POETRY???"

e eu lembrava da tia marisa
da redação sobre a namorada
que nunca foi minha namorada
e do cuidado que ela teve
pra não me machucar pra sempre
e, pela primeira vez,
passei a mão pela garganta
como quem sente uma cicatriz
que nunca esteve lá
se fechando pra nunca mais abrir.

por isso,
esta redação é dedicada à tia marisa
tia...
onde quer que você esteja...
ainda não foi desta vez que eu escrevi pra você
mas sempre foi por você.

obrigado.
muito obrigado.

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