Thursday, February 03, 2005

Em um instante: uma estante!

um metro e noventa da melhor madeira que existe em forma de estante.
uma coisa muito linda pra se ver e muito feia pra se colocar dentro de um gol mil
sim.
agora eu tenho uma estante para colocar TODOS os meus vinis.
presente do Junir, primo da Nilcéia, mãe da Calu, que é mãe da Vitória que é sobrinha do Bruno que me ajudou a carregar a estante do apartamento do Junior até o carro. Em outro carro, o Junior ia para a rodoviária de onde partiria de volta para Curitiba onde, peço a qualquer deus que me ouça, ele tenha todo o sucesso do mundo.
dois problemas.
colocada no carro, a estante já estava.
agora era saber:
1) como tirar...? (e, depois de tirar...)
2) onde colocar?
Eram uma onze e pouco da noite quando o Igor me ligou e respondeu as duas perguntas de uma vez. Ele ia voltar comigo pra casa, ele ia me ajudar a tirar a estante do carro e, enquanto eu arrumava o meu quarto pra que a estante coubesse nele, a estante poderia ficar no quarto dele.
O problema da estante teria sido resolvido num instante, não fosse ela uma estante de um metro e noventa da melhor madeira que existe. E a melhor madeira que existe também é a madeira mais pesada que existe.
Quando o Igor olhou pra dentro do carro percebeu o que eu já havia dito pra ele ao telefone: it will be a long way home. A estante entrou pelo porta malas, abaixou o banco de trás e foi até lá, no banco do passageiro, do meu lado, permanecendo a um passo de cutucar meu olho com um de seus pés de metal. O outro pé de metal servia de apoio pro meu cotovelo enquanto eu mudava de marchas com a ponta dos dedos e torcia pra não precisar puxar o freio de mão.
De qualquer maneira, o Igor deu um jeito de entrar no carro e a gente fez a viagem sentado um de costas pro outro num carro que só tinha um banco útil sem problemas. mesmo o processo de retirada do armário do carro foi tranqüilo tendo em vista que tinha lama por toda parte, o piso da entrada tava escorregando e nós dois estávamos de havaianas.
Foi tudo bem, mesmo assim.
Enquanto ele ajeitava as coisas dentro do quarto, eu ajeitava as coisas dentro do carro.
O que era do banco de trás voltou pro banco de trás, o que era do chão voltou pro chão e as coisas do porta-malas continuaram lá.
Como a mãe do Igor tava em casa, isso impossibilitava qualquer ensaio do Terremoto Torquemada, acústico ou elétrico. Assim, era coisa de uma hora da manhã quando a gente decidiu que seria uma boa ir ver a represa. Fomos pra lá, levamos os violões mas nem tiramos eles do carro. Choveu o tempo todo. Meu celular ficava caindo do meu bolso o tempo todo, de modo que eu joguei ele pro banco de trás e ainda comentei: “como é bom pegar as coisas assim, sem nem olhar, e jogar pro banco de trás”.
Eram duas horas quando a gente resolveu voltar. Como havia lama por toda a parte, achei que seria polido e educado levar o Igor até a casa dele e depois voltar.
Ainda chovia quando parei meu carro dentro da garagem de casa e fui catar o mínimo possível de coisas pra levar pra casa. Chave de casa, isqueiro, celular... celular? Mas eu tinha logado ele aqui no banco de trás... Pra onde ele foi? PLIM!! Brilhante idéia essa de ligar pro celular, deixar o telefone fora do gancho e voltar pro carro, pra ver de onde ele toca. Sim... brilhante... só que eu não ouvi nada. Voltei pra dentro e fui botar o telefone no gancho. Ocupado. Ocupado? Só se alguém atendeu... Será que...? O telefone do meu quarto começa a tocar desesperadamente. Ele tem toque de sino, como os telefones antigos, que pareciam despertadores. Um despertador tocando dentro da sua casa as duas e tanto da manhã não é o tipo de coisa que vai deixar mamãe, papai e meus irmãos felizes. Corri lá pra cima, mas não consegui chegar a tempo de atender embora já tivesse uma vaga idéia do que poderia ter acontecido.
Sem saco pra pegar o carro outra vez, fui a pé, debaixo daquela garoa chata, de volta pra casa do Igor. Andar naquela rua no escuro nunca foi fácil, mas nesse comecinho de 2005, com as chuvas que caíram por lá e mais o tanto de terra que aquele japonês filho da puta vizinho do Américo tem mania de jogar na rua, anda por lá é um trabalho, digamos, sujo.
Existem algumas técnicas para isso, mas acho que a pressa contou contra, de modo que eu senti uns toletes de barro entre os dedos do meu pé. Lembrei da antiga propaganda da Jeaneration Jeans que passava na TV, em que um cara passava por uma poça, molhava a calça e, depois, voltava e ficava pulando dentro da poça, espirrando água pra todo lado, com jeito de quem estava se divertindo muito.
Assim que passei pelo portão, dei uma sacudida no pé, que espirrou uma conta considerável de barro na fachada da casa do Igor. Olhando pela janela, vi meu celular em cima do sofá da sala e notei a luz da cozinha acesa ao mesmo tempo que o Igor notou minha presença e abriu a porta dos fundos.
Pouco depois, ele vinha com meu celular dizendo “caralho, você teve a manha de jogar o celular no fundo da minha mala”. Eu sorri: “acontece... você sabe.”.
Essa coisas de filme.
Sujeito joga o celular pro banco de trás do carro e diz: “como é bom pegar as coisas assim, sem nem olhar, e jogar pro banco de trás”. A câmera acompanha o vôo do celular pra dentro da mala e observa a luz verde se apagar, como uma lembrança distante.
Quando eu liguei pro celular, de casa, o pequenino armou um escândalo com um toque groovy blues que teria acordado todo mundo, caso a bateria não tivesse acabado. O Igor percebeu e me ligou e, se não fosse o capote que eu tomei na escada, eu talvez tivesse conseguido atender. Mesmo assim, se existe uma coisa que a entidade chamada Terremoto Torquemada ensinou tanto pra mim quanto pra ele é que a gente pode esperar qualquer coisa. Como o dia em que eu abri uma cerveja e a tampinha voou pra dentro do bolso da minha camisa. Como no dia que o Igor conseguiu jogar uma baqueta em cima do armário no meio de uma música e deixar ela encaixadinha dentro de um porta-lápis. Como isso.
Aí, eu voltei pra casa e, com a chuva caindo um pouco mais forte, fui descendo a avenida do condomínio, brincando de “o que aconteceria agora se eu fosse possuído por uma força demoníaca” e lavando os pés sujos nas poças.
Mais uma vez eu lembrei da propaganda da Jeaneration e foi por pouco que não cedi à tentação de armar um rebosteio pulando naquelas poças todas.

1 Comments:

Blogger GaBi said...

ham, erica..
eu já disse tudo que eu disse. né?
o filme da estante. é...
um beijooooo(...)

February 4, 2005 at 5:36 AM  

Post a Comment

<< Home