Friday, February 25, 2005

going gonzo, baby.

Era mais ou menos meia noite
quando a gente chegou e olhou a casa por fora.
A gente ainda não sabia que lá dentro a cerveja custava 5 reais,
mas opinou que talvez custasse quatro e, por isso,
decidiu ficar no boteco do lado mais um pouco,
enquanto o resto do povo chegava.
Tinha gente de todo tipo, como sempre tem.
Tinha os residentes –
aqueles que não importa a banda que venha,
desde que eles mesmos venham
e que o bar esteja aberto.
São viciados:
viciaram na máquina de fliperama,
viciaram em jogar pebolim com o couro comendo solto no palco,
viciaram em desenhar coisas nas paredes do banheiro,
viciaram em grudar os seus sticks por aí.
Viciaram um no outro.
sei lá:
viciaram.
este é meu vício
e eu entendo os viciados perfeitamente.
Não julgo.
Apenas reconheço:
eu sou um deles
e não sou daqueles que ataca a própria espécie
com outra arma que não um reflexo distorcido
num espelho bem particular
ou nem tão particular assim.

O balconista do boteco era um português mal humorado
que já virou uma caricatura local.
Ele sempre maltrata os empregados,
que sabem que ele é meio surdo
e xingam baixo o bastante
para que o portuga não ouça,
mas a gente sim.
A gente começa a cogitar, em segredo,
a possibilidade daquele portuga ouvir tudo
e só fingir de surdo.
A menina do meu lado lembra de uma tia de um ex-namorado
que brigou com todo mundo da casa e, em protesto,
deixou um único bilhete do lado do aparelho de surdez
esmagado violentamente com o pé da cama:
“olho por olho, dente por dente:
você não me ouvem,
eu não ouço vocês”.

Liberdade, liberdade.

A gente acha que a suprema liberdade
é um dedo médio paralisado em riste,
paralelo à espinha
e perpendicular ao olhar...
este, fixo no horizonte infinito e além.
A gente sabe que a cerveja é cara,
que um sanduba custa os olhos da cara
e a gente não vai pagar.
A gente tem nome na lista e,
consumindo nada,
nada é o que a gente paga.
Vida de jornalista.
Tudo que a gente precisa fazer é ir ver o show.
E gostar do show.
Ou não.
Mas em geral a gente gosta sim.
A gente não é chato.
Ou até é,
mas só até o ponto de não sair de casa
pra ver um show que a gente não ta a fim de ver e,
pode crer, a gente quer ver tudo.
Nem que seja como mera curiosidade antropológica
ou, sei lá,
porque a cerveja no boteco do lado é boa
e barata o bastante pra compensar a viagem.
O máximo que pode acontecer,
é isso que aconteceu hoje.
A gente achar que o show é hoje
e ele ser sexta que vem.

Tudo bem.

A cerveja no boteco do lado é boa
e barata o bastante pra compensar a viagem.
... e sexta que vem é hoje.
E a gente tá esperando o resto do pessoal chegar.

1 Comments:

Anonymous *ga said...

nunca li você tão jornalista.
antropo-lógicos eu não gosto... ainda bem que você é ator.
tem esse lado da liberdade que eu ainda não tenho, me toca: i can hear the clock inside ticking.
as coisas são desconexas, Gonzo... i never thought i'd need so many people. duas versões. dois beijos - um de cada lado.

March 1, 2005 at 8:05 AM  

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