Friday, May 20, 2005

O CIRCO TOMOU CONTA DOS MACACOS

eu vou te contar como foi que aconteceu,
ou, pelo menos o que eu lembro que aconteceu.

pior ainda: vou te contar o que eu acho que aconteceu,
porque no estado que eu estava é bem provável
que minha imaginação
tenha cuidado de preencher certos buracos da memória.

seja como for, já foi.
quem tiver história pra contar que conte.
esta é a minha.
a única que posso contar.

aos fatos.
era uma terça feira e, não sei pra você, mas, pra mim,
terça-feira sempre foi um dia bom pras coisas acontecerem.
quando a gente passou na bela cintra pra pegar o emannuel,
a garrafa de dreher já estava aberta,
mas foi só quando a gente chegou na augusta que percebi isso.
foi no meio de uma frase metida a engraçada
e minha voz assumiu um tom mais sério na hora.
isso que tirou daquela frase o ar “metido a engraçado”
e a deixou engraçada de fato.
a garrafa de dreher era a coisa séria.
a gente tocando em meia hora era a coisa séria.
o jeito como o primeiro gole desceu pela minha garganta era sério.
eu não precisava ser sério.
nenhum de nós precisava.
as coisas já eram sérias por elas mesmas
e sem a nossa ajuda.

éramos cinco dentro do gol e uma garrafa na linha.
todas as bandas que eu realmente gosto cabem dentro de um carro.
a gente cabe.
o ricardo no banco da frente, do meu lado,
tocando gaita pra acompanhar o rádio.
o igor, o emannuel e o gui empinhocados no banco de trás
entre instrumentos e o lixo que eu não joguei na rua.
todo mundo falando ao mesmo tempo
e dando palpite nas músicas que tocavam no rádio.
o rádio do golzinho tem suas peculiaridades.
a primeira é que ele é um toca-fitas que não toca fitas há mais de um ano.
a segunda é que só existem dois volumes: o muito alto e o muito baixo.
pra ele sair do “muito baixo” pro “muito alto”
a música tem que ser muito boa
ou, então, o povo da frente precisa estar muito a fim
de zoar com o povo que está atrás.
e o ricardo e eu estávamos a fim de fazer o povo da ala traseira do golzinho
escutar craviola barroca na rádio cultura fm.

você há de concordar comigo
não é longo o caminho entre a bela cintra (lado centro) pra augusta (lado jardins).
a gente fez o percurso em cinco minutos,
mas nesses cinco minutos
aconteceu duas vezes de alguém zapear no rádio e estar tocando doors.
uma foi com “hello i love you” bem no finalzinho,
outra foi com “roadhouse blues”, que a gente deixou tocar bem alto.
foi nessa hora que a gente olhou pro carro do lado e viu o tom jobim.
não adianta vir dizer que ele morreu em 94,
porque era o tom jobim sim.

quando a gente parou o carro na augusta,
um caminhão de lixo vinha subindo.
não era daqueles caminhões que prefeitura compra.
era um caminhão normal carregado até o tampo de lixo e,
sobre o lixo, cinco caras que deviam escorregar lá de cima
e ficar jogando o lixo da rua pra cima da caçamba
cada vez que o caminhão parasse.
os caras do caminhão viram a gente com os instrumentos
e começaram a encenar uma palhaçada,
como um show de rock em cima do caminhão de lixo.
percebe que a gente tem cara de banda de rock e só de banda de rock?
se a máquina fotográfica estivesse na minha mão
e o caminhão tivesse parado,
acho que a gente teria uma bela capa
pra demo do terremoto torquemada.

ao invés disso, a gente ficou gritando pra eles
e eles gritando pra gente como macacos na selva,
que se encontram
e se reconhecem.

eles subiam a augusta fazendo guerra de lixo entre eles
e eu me perguntava se, quando a porta do estúdio fosse fechada
e o REC fosse apertado
a gente conseguiria se divertir tanto quanto eles.
foi uma pergunta besta,
daquelas que não precisam de resposta.

a gente não tinha escolha.
éramos todos macacos
e estávamos prontos para tomar conta do circo
agora que o dono tinha saído pra furunfar com a mulher barbada.

1 Comments:

Anonymous Igor said...

A frase que explica o resultado final deste episódio foi dita pelo dono do circo quando ele voltou para ver o que tinha acontecido:
"O que os microfones de gravação estão fazendo aí?!"
Nós respondemos:
"TERREMOTO TORQUEMADA!!!!!!"

June 7, 2005 at 4:51 PM  

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